segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Fundamento Histórico do Congregacionalismo

 Autor: Rev. Vanderli Lima Carreiro 


  O sistema congregacionalista de governo eclesiástico teve o seu ressurgimento na Inglaterra, no século XVI, quando Isabel (1558 - 1603), filha de Henrique VIII, governava o Reino Unido. A princípio o congregacionalismo era um movimento reacionário à união da igreja com o Estado, especialmente ao "Ato de Supremacia", que indicava o rei como o chefe da Igreja. A estrita observância que se exigia a todos os súditos, dos ritos e costumes da Igreja Anglicana, ainda contaminada pelo ritualismo e pelas práticas da Igreja Romana, fez com que se fortalecesse o grupo de puritanos, dentro dela própria, e começassem a surgir os primeiros dissidentes separatistas, que adotavam a doutrina calvinista e propugnavam pela formação de comunidades eclesiásticas independentes e autônomas, nos anos de 1567 e 1568.

Rainha Isabel I


  O Rev. Porto Filho ressalta que, "já em 1561 foi publicada ali (em Londres) uma 'Exortação à reforma da Igreja', sustentando alguns princípios depois chamados congregacionalistas, e o Pr. Richard Fytz, considerado o mais antigo Pastor de uma Igreja desse tipo, editou um manifesto sobre 'As verdadeiras Marcas da Igreja de Cristo'". Este último fato também se deu em Londres, em 1570.

  Em 1580 Robert Browne, um clérigo anglicano, adotou as ideias congregacionalistas, e ao lado de Robert Harrison fundou, em Norwich, uma congregação independente, adotando o sistema congregacionalista. Foi forçado, porém, por causa da perseguição, a refugiar-se na Holanda. Robert Browne escreveu ali alguns tratados, principalmente um sob o título de Reformação sem esperar por Ninguém, no qual expunha suas doutrinas sobre a independência congregacional. Foi o primeiro teólogo do movimento e cedo as comunidades independentes passaram a receber o apelido de brownistas.

  Browne regressou para a Escócia, foi feito prisioneiro e, libertado um pouco depois e, provavelmente sob a pressão dos opositores "renunciou às ideias que divulgara e se reintegrou na Igreja Anglicana em 1591, ali falecendo como cura de uma pequena paróquia, em 1633".

Rev. Robert Browne
 
 Brownistas sendo enforcados 

  Os Congregacionalistas são, portanto, os descendentes da primeira Igreja independente na Inglaterra. Nos primeiros dias da Reforma, a Igreja "oficial" não via com bons olhos aqueles que se insurgiam contra a sua autoridade. Mas havia cristãos que se distanciaram das reformas que a Igreja "estabelecida" permitia. Henry Barrowe, John Greenwood e John Perry, todos graduados em Cambridge, não silenciaram diante das ameaças da Igreja estatizada e da corte, e foram detidos na Prisão de Fleet, onde agora se encontra o Congregational Memorial Hall, em Londres. Um tempo depois foram enforcados em Tyburn, em abril e maio de 1593.

Congregational Memorial Hall


  Os líderes do movimento congregacionalista, entre 1580 e o final do século, foram: Robert Browne, Henry Borrowe, John Green, Henry Ainsworth e Francis Johnson. Henry Ainsworth e Francis Johnson foram pastores da comunidade congregacionalista em Londres. Entretanto, ali não puderam permanecer e com grande número de crentes tiverem que procurar refúgio na Holanda, em 1602. Ali os dois líderes se desentenderam e a comunidade cindiu-se em dois grupos. O grupo que ficou sob a liderança de Johnson, com tendências presbiterianas mais radicais, depois da morte do seu líder, se extinguiu em 1610. O grupo sob liderança de Ainsworth, praticando um sistema mais suave de presbiterianismo, também se dissolveu depois que o seu líder faleceu em 1618.

  As congregações independentes mais influentes e historicamente as mais importantes, foram a de Gainsborough e a de Scrooby. Ambas nasceram em Gainsborough, em 1602. Porém parte da congregação começou a se reunir na Manor-House, casa senhorial de Scrooby. Deste modo surgiu uma nova comunidade independente, a pouca distância da primeira, e plenamente identificada com ela.

  Entretanto, logo as duas congregações tiveram que exilar-se na Holanda, devido às ameaças que sofriam de desterro ou prisão, da parte do reino, depois de ocupar o trono na Inglaterra o rei Tiago, em 1603. "Primeiro foi o grupo de Gainsborough, liderado por John Smyth, em 1606; depois o de Scrooby em 1608, com Richard Clifton no pastorado, William Brewester como seu assistente e John Robinson como mestre". Encontravam-se, pois, em Amaterdan, três congregações de exilados ingleses: a de Ainsworth, a de John Smyth e a de John Robinson, substituindo Richard Clifton, que se transferiu para a de Ainsworth.

  John Smyth logo entrou em desavença com Ainsworth, por causa do presbiterianismo. Em 1609, Smyth convenceu-se que o batismo infantil, então praticado por todos, era anti-bíblico e, "batizando a si mesmo e depois a seus companheiros iniciou com o seu grupo, na Holanda, a linhagem histórica dos batistas". Em sequência o Rev. Porto Filho esclarece que "naquele tempo a prática do batismo era o de afusão; a prática da imersão surgiu mais tarde, por volta de 1640, na Inglaterra, para onde o grupo voltou com Helwys, após a exclusão de Smyth, que havia passado para a comunidade dos menonitas, em 1611.

.                                        John Smyth, considerado um dos precursores do movimento batista 


  John Robinson não se envolveu no conflito entre Smyth e Ainsworth. Ele e a sua congregação sob a sua liderança estabeleceram-se em Leyden, cidade do sul da Holanda, em 1609. A congregação contava então com cem pessoas. Pouco tempo depois já se compunha de trezentas. Uma parte dessa congregação resolveu voltar para Londres, liderada por Henry Jacob, organizando a Igreja de Southwark, em 1616. Os que ficaram na Holanda resolveram que uma parte da congregação emigraria para o Novo Mundo, no começo de 1620. Robinson e outros fiéis se reuniram a eles mais tarde depois.

  Um grupo de emigrantes anglicanos chegou à América do Norte em 1628, no comando de John Endicott. Em 1629, outro grupo de anglicanos desembarcou na baía de Massachussets, liderados por John Wintrop, composto de trezentos homens, cem mulheres e crianças. Três ministros anglicanos acompanharam a expedição, com o alvo de estabelecer uma colônia de puritanos na América.

  Os de Endicott uniram-se a eles e em Agosto de 1629 foi organizada a Igreja de Salém, que tomou o nome de Congregacional, sendo imitada pelas que se seguiram. O Rev. Porto Filho ressalta que "o congregacionalismo foi adotado, ali, não por convicção nem por conversão doutrinária, mas por expediente político e administrativo". Não obstante, os independentes são reconhecidos como os fundadores dos Estados Unidos.

 Chegada dos puritanos na América 


  Oliver Cromwell, um militar e líder político inglês, era um independente. Após sua conversão religiosa, em 1630, tornou-se um puritano-independente, assumindo uma posição tolerante com os separatistas do seu tempo, durante o período em que liderou o exército britânico. Entre os congregacionais seus contemporâneos é citado John Owen, um dos grandes teólogos que a Inglaterra produziu.

Oliver Cromwell 


  Em 1662, com a publicação do "Ato de Uniformidade", os pastores das Igrejas da Inglaterra foram obrigados a concordar com os "39 Artigos da Religião" e a adotarem nos cultos o "Livro de Oração". Cerca de dois mil ministros recusaram fazê-lo e foram expulsos das suas residências. Muitos eram presbiterianos, mas outros haviam se tornado ministros das Igrejas Congregacionais, que ali existiam em bom número.

  Mais tarde, quando Deus abençoou o Seu povo com o reavivamento, nos dias de George Whitfield e dos Weslleys (John e Charles), especialmente, depois de uma inicial hesitação, as igrejas independentes estavam prontas a receber e a espalhar as bençãos.

  Na última década do século XVIII, abriu-se a era do movimento missionário moderno. Os Congregacionalistas da London Missionary Society (Sociedade Missionária de Londres) fundada três anos depois da Baptist Society (Sociedade Batista) de Carey, proporcionou uma variedade surpreendente de pioneiros. Estavam incluídos Van-der-kemp entre os Kaffirs (povo do extremo sul da África do Sul), Robert Morrison e Griffiths para a China, e John Williams para os Mares do Sul. Esses foram os respeitáveis sucessores do missionário congregacional pioneiro, John Eliot de Nazeing, que se uniu aos Pais peregrinos na América em 1631. Ele tem sido considerado o "Pai das Missões Modernas" e foi o primeiro a traduzir as Escrituras para um povo pagão com o propósito missionário.

  O começo do século XIX foi marcado pelo período da explosão populacional que acompanhou a Revolução Industrial. Movidos pela paixão pelas almas, os congregacionalistas daqueles dias produziram evangelistas e pregadores determinados a buscar "toda criatura" e trazê-las para o Evangelho. Este zelo intenso resultou na plantação de várias Igrejas nas cidades e vilas industriais. Eles foram os missionários urbanos pioneiros em incontáveis lugares nos países do Reino Unido.

  Não é possível estabelecer uma ligação direta de Robert Reid Kalley com o congregacionalismo na Inglaterra. Ele não era membro de nenhuma Igreja congregacionalista, e sim da Igreja Presbiteriana Livre da Escócia; nem veio para o Brasil enviado por uma agência missionária congregacional, embora a Missão que procurara para ser enviado à China fosse Congregacional - a Sociedade Missionária de Londres - que operava naquele país, onde o Dr. Kalley pretendia trabalhar, e só não foi devido ao agravamento da saúde de Margareth, sua primeira esposa, que não se adaptaria ao clima oriental. Por isso o Dr. Kalley rumou para a Ilha da Madeira, território insular português, cujo clima era favorável à recuperação do estado de saúde da Sra. Margareth. Tendo voltado para a Escócia, sua esposa veio a falecer. Numa viagem que fez ao Oriente, passando pelo Líbano, conheceu Sarah Poulton Wilson, com quem mais tarde se casou. Sarah era membro dedicada e atuante da Igreja Cogregacional de Torquay, na Inglaterra. Certamente Sarah exerceu influência sobre o esposo, com o seu conhecimento dos princípios e do governo congregacionalista. Isso também justifica a preferência de Kalley pelo sistema.

  O Rev. Porto Filho testemunha que

  "... o Dr Kalley era de origem presbiteriana. Particularmente era avesso a organizações legalistas e centralizadas. Seu espírito pastoral - e ele se caracterizava exatamente por seu ministério pastoral junto ao rebanho - o aproximava extraordinariamente de John Robinson, o celebrado pastor de Scrooby, Igreja-mater do congregacionalismo, em sua concepção do 'povo de Deus', da Igreja, e na aversão a contendas e discussões entre cristãos. Assim, ao criar a primeira Igreja Evangélica do Brasil, Kalley se distanciou da sua tradição presbiteriana, rígida em matéria de ordem eclesiástica e introduziu instituição do tipo congregacionalista. Com isso ficou expressada a independência da Igreja local de qualquer assembleia superior, e a corresponsabilidade de todos os fiéis no governo eclesiástico".

  Quanto ao sistema de governo adotado pelas Igrejas organizadas pelo Dr. Kalley, o Rev. Porto Filho explica:

  "Ainda que ele haja estabelecido presbíteros e, depois, diáconos, em sua comunidade eclesiástica, esse grupo de oficiais não recebe autoridade governativa da Igreja, senão o ministério de orientar e assessorar a Igreja que os elegeu, exatamente como esse corpo de varões e diáconos foi criado por Ainsworth na Holanda e mais tarde estabelecido nas comunidades congregacionalistas".

 Robert Kalley e sua esposa Sarah Kalley 


  A questão da identificação do congregacionalismo Kalleyano com as igrejas independentes ou congregacionalistas inglesas é contestada pelo Dr. Douglas Nassif Cardoso. Em sua obra Práticas Pastorais ele considera que pela influência de Francisco Antônio de Souza, e posteriormente pela do Rev. Manoel da Silveira Porto Filho, as Igrejas congregacionais brasileiras sofreram um desvio histórico, ou receberam uma "outra herança" por terem sido ligados "ao congregacionalismo americano e inglês". Concordamos que nunca existiu uma influência direta. Mas não pode negar que o fundamento teológico é o mesmo, como mais adiante se poderá notar.

  Há também os que declaram que o Dr Kalley era avesso ao denominacionalismo. Mas se pode afirmar o contrário, com base na palavra do Rev. Porto Filho:

  "(O Dr. Kalley) não era anti-denominacionalista, senão avesso a toda amarga e personalista controvérsia. Sabia, como escocês, das lutas terríveis das facções em sua terra e na Inglaterra. Mesmo na Madeira, vira como era pequena a propaganda e penetração da Igreja Escocesa ali estabelecida no sentido de evangelizar o povo. Seus trabalhos na Ilha, feitos sem conexão com a Igreja, em caráter particular, com a dedicada colaboração dos neo-convertidos, baseados em testemunho pessoal, tinham influência missionária mais pronunciada e estavam ganhando os nativos. Talvez isso e o fato de ter sido ordenado pela Sociedade Missionária de Londres e não por uma Igreja estabelecida, tornam-no descomprometido com qualquer denominação".

  Além dessa declaração incontestável do Rev. Porto Filho, pode-se acrescentar uma informação incluída em artigo publicado em O Cristão, de autoria da bibliotecária Esther Marques Monteiro. Veja-se o teor da informação: "Em 1878, o Dr. Kalley sugeriu, em carta, o seguinte: 'Será conveniente formar uma Associação de Igrejas que aceitem os 28 Artigos da Breve Exposição'".

  Por que as Igrejas organizadas pelo missionário Kalley não foram logo nomeadas "congregacionais "? O Rev. Porto Filho esclarece que:

  "no último quartel de 1800, a influência do liberalismo teológico ganhou terreno, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, entre Igrejas e seminários. O Congregacionalismo não ficou imune a essa influência. A oposição do doutor ao nome decorria do receio de suas Igrejas poderem ser confundidas com as correspondentes Igrejas americanas e inglesas e com as correntes de pensamento e costumes que nelas predominavam".

  Justificada está a razão pela qual as Igrejas criadas pelo Dr. Kalley não ostentavam o nome"congregacional". Eram identificadas como Igreja Evangélica Fluminense, Igreja Evangélica Pernambucana, Igreja Evangélica de Passa Três e Igreja Evangélica de Niterói. Também a denominação não recebeu o nome congregacional na primeira Convenção, em 1913. Chamou-se "Convenção das Igrejas Evangélicas Indenominacionais". Somente em 1916, o nome "congregacional" foi empregado: Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais Brasileiras e Portuguesas. Desde então a denominação recebeu outros nomes, até 1969, quando lhe foi dado o designativo de União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB), nome que prevalece até hoje.

Igreja Evangélica Fluminense 


Texto retirado do livro "Fundamentos e Princípios do Congregacionalismo" de autoria do Rev. Vanderli Lima Carreiro, pastor congregacional e mestre em Teologia, com especialização em Educação Religiosa.


3 comentários:

  1. É muito importante conhecermos a história da primeira denominação a se fixar e a evangelizar o território brasileiro.

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  2. Muito bom! É muito importante conhecermos a história da igreja.

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    1. Amém. É verdade. Obrigado pela sua participação aqui no blog.

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