Autor: Pr. Neucir Valentim
A Predestinação...
Elimina o julgamento do ser humano - como o ser humano pode ser culpado ou absolvido de algo que lhe foi determinado e que não dependeu da sua vontade? (Hebreus 9:27; Mateus 24:45,46; 25:21). Como alguém pode ser culpado antes de sua existência? Conheço a Depravação Humana, é um fato, mas não concordo segundo a predestinação, com a ideia de um Deus bom, trazer à existência homens, mulheres e crianças destinadas à perdição eterna. Mesmo antes de existirem, terem culpa ou pecado, serem punidos ao fogo eterno sem opção! Mesmo sem a possibilidade de pedirem para existir! Isso não se coaduna com o Deus da Bíblia. Veja mais abaixo.
Maldade de Deus - A predestinação seria um ato de maldade de Deus, por ter sacrificado o Seu Filho em vão e, podendo salvar a todos, preferiu destinar trilhões e trilhões ao fogo do inferno (Lucas 19:10; Atos 16:10; Romanos 10:13; Judas 23). Pois ao escolher alguns para a vida, trouxe à existência trilhões para morte, que não pediram para nascer.
Não considera o amor de Deus - evidenciado em cristo Jesus a todos os homens (João 3:16).
A Mensagem da Salvação Universal é um grande blefe - se somente alguns poderão usufruir da salvação mediante a predestinação, logo a mensagem do Evangelho é uma propaganda enganosa (II Pedro 3:9; João 3:16; I João 2:2 etc.).
Dispensa a graça de Deus - a graça de Deus não tem sentido na predestinação, porque a pessoa está condenada ou salva. Se ela aconteceu, foi apenas no "decreto" que o elegeu, sem que tenha tomado dele conhecimento (Romanos 3:24; 5:20; 6:24).
Contraria o espírito das escrituras - essa doutrina invalida o Evangelho, destrói o amor ao bem, acaba com a ética, sacraliza qualquer tipo de comportamento e coloca em Deus todas as culpas, responsabilizando-O pelo flagelo humano (Marcos 16:16; João 3:16; Efésios 2:5-6).
Confunde desejo e realidade - por que o Criador iria desejar que somente alguns fossem salvos? A vontade de Deus é que todos sejam salvos e, por isso, coloca à disposição a Sua graça. Na realidade, somente os que aceitam os meios de salvação oferecidos, podem recebê-la (Atos 13:43; Romanos 5:20).
Desmente a doutrina da queda - se Deus é justo, amoroso e imparcial, por que faria acepção como alguns predestinacionistas afirmam? Então a queda não existiu de direito, foi apenas um fato ilustrativo. Se a predestinação se deu após a queda, conforme outros afirmam, aí a queda não tem importância alguma na história da salvação (Gênesis 3; Romanos 5:12; 8:3; I João 3:5), ou como alguns ensejam, para consubstanciar a sua errônea doutrina, a "queda é um mito literário."
Deus faz acepção de pessoas - se Deus é justo, por que destinaria pessoas à condenação eterna antes mesmo de nascerem, sem lhes dar oportunidade alguma? (Deuteronômio 10:17; Jó 34:19; Atos 10:34).
O ser humano não é autônomo - é inegável que o ser humano é dotado de intelecto, vontade e razão. Se Deus o criou assim, por que então não lhe permite usar o intelecto para conhecê-Lo, a razão para compreendê-Lo e a vontade para escolhê-Lo? A doutrina da predestinação, qualquer que seja o seu matiz, priva o ser humano de escolher, o que descaracteriza totalmente a sua humanidade (I Coríntios 9:1; II Coríntios 3:17; Gálatas 5:13; Tiago 1:25).
Sei que muitos vão usar o argumento de que "Quem sou eu para estar questionando o Criador?". Não estou questionando o Criador, a Ele sempre me curvo, mas sim uma teologia desenvolvida por Agostinho, que a rigor criou outras teologias deploráveis ao entendimento protestante hoje, e que foi sistematizada por Calvino, no Século XVI!
Para sua reflexão!
Os que invocam a predestinação, usurpam do termo soberania de Deus para impor-lhe um caráter arbitrário, mesquinho e restritivo. Ele de fato é soberano, todavia, a sua soberania não o faz atentar contra o seu próprio caráter, e negar os seus próprios atributos, entre eles o da justiça.
Imagine você como seria confuso, diante do Trono Branco (Apocalipse 20:11), para trilhões de seres que vieram à existência pelo decreto divino, entender a sua condenação por antecipação, sem que, aos mesmos, tenha sido oferecido a chance de conseguir, ao menos crer. Isto não coaduna com a essência das Escrituras, com a misericórdia de Deus, com o significado universal da cruz e com a razão. Para os predestinacionistas, falta-lhes uma percepção óbvia da divindade. Deus conhece a história por antecipação. Esse talvez seja o grande equívoco, confundir o saber por antecedência com o predestinar, o que é substancialmente diferente.
Talvez fosse bom acrescentar aqui que sendo Deus o Criador do universo moral, o Senhor o criou com a "possibilidade" do mal moral. Não pode existir tal coisa chamada bem moral, a menos que haja o mal moral. Sem a escolha voluntária do que é justo e certo, não pode existir a virtude; a liberdade para escolher-se o bem necessariamente implica a liberdade para escolher o mal com todas as terríveis conseqüências decorrentes da escolha. Não pode haver a possibilidade do amor real, sem a existência da rejeição e do ódio.
Portanto, se Deus criou os anjos e os seres humanos com o propósito de amá-los e manter comunhão com eles, tais criaturas deveriam ter a prerrogativa de reagir a ele em amor, por sua própria decisão. No entanto, a menos que haja a possibilidade de a pessoa rejeitar o amor, não pode haver a possibilidade de afirmar o amor. Sem essa liberdade de escolha, não existe moralidade, nem amor, apenas reação automatizada, mecânica. Que essa percepção sirva de resposta às perguntas que se levantam com tanta freqüência: Por que permitiu Deus a existência de uma pessoa como Satanás? Por que permitiu Deus que Satanás se aproximasse de Eva por meio de seu agente, a ser-pente? Por que Deus não fez Adão e Eva completamente bons, de tal modo que jamais caíssem em tentação? A resposta a todas as perguntas é: sem a possibilidade do mal, não haveria a possibilidade do bem.
Há outra distinção importante no que concerne ao ser humano, que não se pode deixar de lado. Gênesis 1.27 declara que Deus fez o homem à sua imagem. Significa, então, que em sua estrutura moral e mental, Adão seria parecido com Deus dentro dos limites em que o finito possa assemelhar-se ao infinito. E certo que Deus é bom, e nele não há mal algum, nem engano. Deus é bom por causa de alguma força externa que o condicionou, de modo que ele não poderia ser outra coisa senão perfeito? Ou ele é bom porque ele escolheu a bondade e rejeitou o mal?
Poder-se-ia levantar uma questão muito apropriada quanto a que se fora de Deus seria possível criar-se um padrão de medida moral, pelo qual sua bondade seria avaliada e determinada. É certo que a vontade de Deus é totalmente livre e não é determinada por outra autoridade ou poder externos. Então, não aconteceria que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, também tenha sido dotado de uma capacidade análoga de escolha pessoal, em virtude da qual o ser humano é responsabilizado por ter colocado a si próprio acima de Deus, como o fez toda a raça humana (com exceção de Jesus).
Concluímos, pois, que o ser humano é total e finalmente responsável pelo seu próprio pecado, pelo qual Deus não tem responsabilidade alguma, em grau nenhum. Quando o Senhor lança uma convocação a toda a raça humana para que haja arrependimento e retorno a ele, em fé e total submissão (Atos 17.30,31: "... ordena agora a todos homens, e em todo o lugar, que se arrependam; porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos..."), esse apelo deve ser considerado um convite sincero, uma oferta de perdão e vida nova a todos os homens, em todos os lugares. Se recusarem essa oportunidade, serão responsáveis e totalmente culpáveis pela recusa.
Esse princípio da graça soberana envolve a rejeição total do esforço humano no sentido de merecer a salvação, ou ganhar o favor de Deus. "Graça" significa que é Deus quem faz todas as coisas, sem a ajuda do homem. A salvação deve advir como dádiva, um presente imerecido, pois o ser humano perdeu todo e qualquer direito e mérito para justificar-se. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Efésios 2.8,9). "Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e renovação do Espírito Santo" (Tito 3.5). O texto diz que nada oferecido a Deus à guisa de caráter bom, serviço nobre ou obras de justiça contribui de alguma forma para a nossa salvação. Os que verdadeiramente se salvam recebem Jesus Cristo (João 1.12) como Senhor e Salvador (Romanos 10.9,10). Tendo o poder do Espírito que em nós habita (Colossenses 3.1-4), produziremos obras de justiça e bondade que manifestem a vida de Cristo dentro de nós ["Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tiago 2.26)].
No entanto, a obra de santificação desenvolvida na vida do crente nascido de novo é basicamente a operação graciosa do próprio Deus (Romanos 8.10-11,14). Essa vida transformada produzirá continuamente o fruto de nove gomos (Gálatas 5.22,23), se na verdade houve entrega pela fé, e não mera contrafação ou auto-engano, e se o verdadeiro filho de Deus apresentar seu corpo continuamente como sacrifício vivo a Deus, que o redimiu (Romanos 12.1). Portanto, o crente não mais se conforma com esse mundo, mas vai-se transformando pela renovação da mente, mediante a operação do Espírito de Cristo que nele habita (v. 2).
No entanto, permanece a verdade que o homem nenhuma contribuição pode fazer em prol de sua salvação, se é que vai salvar-se, é claro. Até mesmo a fé salvadora é dom de Deus (Efésios 2.9). Tudo o que o ser humano perdido pode fazer é considerar as palavras de Cristo e aceitar a oferta de sua graça. E nem sequer a reação positiva se assemelha a uma obra meritória; é apenas um ato de mendigo que estende a mão vazia e suja para aceitar uma ajuda de seu benfeitor. E ato que nada tem a ver com méritos; não atribui ao pedinte merecimento algum, pois continua igual ao que oculta a mão no colo, em vez de estendê-la. A salvação é outorgada por piedade e graça. "Tendo Deus, por mera boa vontade, desde toda a eternidade, eleito alguns para a vida eterna, celebrou com estes uma aliança da graça, para livrá-los do estado de pecado e miséria, e conduzi-los a um estado de salvação mediante um Redentor" (Confissão de Westminster, tirado de João 17.6; Efésios 1.4; Tito 1.2; 3.7; dificilmente essa declaração poderia ser melhorada como formulação clássica da doutrina da graça.
De acordo com esses versículos, Deus escolheu seus redimidos desde a eternidade, "antes da fundação do mundo" (Efésios 1.4). Ele não precisou esperar para ver; aquele que sabe todas as coisas desde o início até o fim conhece qual seria a reação de cada pessoa ao chamado de Cristo. Portanto, esses verdadeiros crentes, que constituem o templo espiritual de Cristo, o corpo místico do Senhor, sua esposa amada, são considerados dádiva de amor do Pai ao Filho (João 17.6: "Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e eles guardaram a tua palavra").
Em que base escolheu Deus os seus eleitos? Não foi de acordo com os méritos que tivessem (Efésios 2.8,9), quer pelo caráter, quer pelas boas obras, tampouco pela fé (como obra meritória), mas "Como também nos elegeu nele" (Ef 1.4). Essas palavras parecem deixar implícito que Deus, o Pai, só escolhe as pessoas que estão no Filho, Jesus Cristo. No entanto, há um mistério a respeito da reação dos pecadores ao chamado do Salvador. É óbvio que não podemos estar em Cristo a menos que estejamos unidos a ele pela fé.
Mas quem determina a nossa fé? Por que duas pessoas na mesma reunião evangélica ouvem a mesma mensagem do mesmo pregador, mas uma delas reage positivamente ao convite e vai à frente a fim de receber a Cristo, enquanto a outra permanece teimosamente em seu lugar, agarrada aos seus pecados e egoísmo? Disse Jesus em João 6.37: "Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora", ou seja, nada existe no princípio da eleição ou predestinação que impeça um pecador arrependido de vir a Cristo e receber sua salvação.
Em João 6.44, no entanto, Jesus disse também: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer...". Os que vêm a Cristo fazem-no como resultado de uma obra graciosa de Deus em seus corações; é Deus, o Pai, que os atrai ao Filho, como Salvador e Senhor. Assim, devemos dar a Deus todo o crédito e toda a glória pelo impulso em nosso coração para reagir positivamente ao chamado de Cristo, quando o Evangelho nos é apresentado.
De outra maneira, poderíamos dizer a nós mesmos: "Bem, de certa forma, eu mereci a graça de Deus, porque eu obedeci quando ele me chamou; fui diferente do pecador impenitente que estava sentado perto de mim, e não quis ir à frente quando o apelo foi feito". Não há lugar para mérito pessoal que diz respeito à nossa eleição. É apenas uma questão "da mera boa vontade de Deus", o qual recebe toda a glória quando um pecador se salva. Todo aquele que rejeita o Senhor deve receber toda a culpa por preferir permanecer condenado e perdido, mas toda pessoa que se salva deve dar a Deus toda a glória e louvor pela sua salvação, e sua nova vida em Cristo.
Resumindo, então: Deus escolhe desde a eternidade todos os que hão de salvar-se; e a única base de sua decisão é sua boa vontade, assim como a única razão da salvação e justificação é o mérito da morte expiatória de Cristo. No entanto, Deus jamais escolhe os que não vão crer e nem querem aceitar Cristo; Deus só levará a Cristo para a salvação os que crêem nele.
O que faz um pecador abrir seu coração à verdade de Deus e tornar-se disposto a crer, na verdade não está esclarecido nas Escrituras. Tudo de que podemos ter certeza é que Deus "é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se" (2 Pe 3.9) e não faz a escolha no lugar das pessoas.
Cada uma assume total responsabilidade por sua própria escolha; como ser humano criado à imagem de Deus (portanto, o homem recebeu responsabilidade moral), em quem o Espírito de Deus operou (pois só ele pode evocar fé verdadeira e salvífica), a pessoa precisa decidir por si mesma entre a vida e a morte, a bênção e a maldição: "escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência" (Dt 30.19).
Pastor Neucir Valentim, pastor congregacional.