Autor: Rev. Vanderli Lima Carreiro
No Novo Testamento não se encontram mandamentos expressos sobre a forma de governo eclesiástico. Daí as diversas opiniões sobre o assunto. Mas as palavras de Cristo, a respeito do modo pelo qual deve a Igreja se conduzir com referência ao irmão impenitente, pressupõem a existência de uma assembleia cristã ou Igreja (Mt 18:15-17). Nada se diz, entretanto, nos Evangelhos, acerca da maneira como essa Igreja deve ser organizada. Descobrimos traços gerais da organização eclesiástica primitiva no livro dos Atos dos Apóstolos e nas epístolas.
O Dr. Dale, defendendo que o sistema congregacional tem fundamento bíblico, afirma que "em favor do congregacionalismo milita o fato de que a comunidade eclesiástica primitiva era, sem contestação, congregacional".
As doutrinas de que Jesus é o Filho de Deus, de que morreu para remissão de pecados, ressuscitou e recebeu todo o poder no céu e na terra são verdades incontestáveis e que ou ficam de pé com o cristianismo ou este cai com elas. O mesmo já não acontece com a forma de governo eclesiástico. A forma de governo da Igreja do primeiro século podia muito bem não se adaptar à do terceiro. É perceptível a todos que, desde os dias apostólicos até a data presente, se haja operado grandes mudanças no seio da Igreja Cristã em suas relações para com a sociedade. Constata-se que o número de membros das Igrejas geralmente aumenta de ano para ano. Em vez dos perseguidos, indoutos e sem letras, como eram os cristãos dos tempos primitivos, os da atualidade pertencem a todas as camadas da sociedade. Muitos deles são médicos, advogados, professores, estadistas e soberanos. Há ministros conselheiros de reis e amigos de presidentes.
"Essa modalidade tão diversa das relações da Igreja para com a sociedade moderna produziria alguma modificação no governo eclesiástico?", pergunta-se e logo se responde que "se as leis gerais que afetam o destino das nações influem na vida orgânica da Igreja, poder-se-á responder pela afirmativa".
As comunidades apostólicas compunham-se só e exclusivamente dos que faziam profissão de fé pessoal em Cristo e somente sob essas condições eram admitidos à comunhão da Igreja. Daí o serem chamados "fiéis" ou "santos em Jesus Cristo" nas epístolas. Naqueles tempos a Igreja consistia, "diga-se com verdade, daqueles 'heróis da fé'. Tornar-se cristão no primeiro século, romper com a sinagoga judaica, desligar-se dos laços do paganismo expirante e morimbundo não era tarefa de fácil execução. Exigia profunda convicção pessoal".
Quanto à questão sobre quem as Igrejas devem receber como membros, assim se lê:
"Na era apostólica, os que estavam fora da Igreja não eram cristãos nominais, mas judeus e pagãos. Talvez se encontre quem pretenda argumentar que o precedente da Igreja Primitiva não autoriza os Congregacionalistas brasileiros a somente receberem como membros da Igreja os que respondem por sua própria fé pessoal em Cristo, os que dão provas de haverem recebido perdão de pecados e a dádiva da vida eterna; mas nos parece ser esse procedimento, não só está de acordo com o precedente apostólico, mas também tacitamente autorizado e estabelecido pelo Novo Testamento".
O estudo do Novo Testamento leva-nos a concluir que as Igrejas apostólicas exerciam disciplina e excluíam do número de seus membros as pessoas que andavam desordenadamente. Naquele, como em todos os tempos, torna-se preciso separar do povo de Deus as pessoas que outras coisas não fazem senão comprometer o Evangelho. "As Igrejas do primeiro século", objetará alguém, "estavam rodeadas de mil dificuldades, eram hostilizadas pela autoridade civil, e daí forçadas pelas circunstâncias a usarem de severa e rígida disciplina. Hoje, entretanto, não se dá o mesmo, o modo de agir dos cristãos é diferente e a disciplina eclesiástica deve ser menos rigorosa". Quem assim raciocina se esquece, por certo, de que hoje, como nos dias apostólicos, é preciso que os crentes mostrem sua fé pelas suas obras. O contrário disso será a falência do Cristianismo.
Pode-se afirmar, portanto, que
"...uma igreja sem disciplina é, espiritualmente falando, morta e incapaz de realizar a obra da evangelização, porque os seus membros são frios, indiferentes e pouco se importa que os homens se percam. O mundo nunca será conquistado para Cristo por Igrejas que deem de barato a esse importante privilégio de que Cristo revestiu o Seu corpo místico. Como era sublime contemplar, naqueles tempos áureos do Cristianismo, as relações da maior intimidade entre os irmãos! Como era de entusiasmar vê-los zelosos do bem, da pureza e da doutrina da religião do Crucificado!"
Os cristãos dos tempos idos possuíam poder extraordinário, miraculoso mesmo, que se percebia quando se cuidava solicitamente da santidade da vida, do procedimento daqueles que faziam parte do corpo místico do Senhor! Era belo e sublime!
Cada igreja apostólica era independente, autônoma, organicamente. Governavam-se essas congregações sem a intervenção de qualquer poder eclesiástico externo. Não reconheciam a autoridade de papas nem de concílios. Entretanto, a união espiritual era a mais completa que se pode imaginar. Efetuava-se essa união por aceitarem todas as Igrejas as mesmas doutrinas, os mesmos costumes e idêntica disciplina.
Essa fraternidade da Igreja Primitiva tornava-se ainda mais intensa pela influência de homens como Paulo, Timóteo, Tito e outros, que constituíam verdadeiros e sagrados elos de união desses vários corpos de cristãos espelhados pelo vasto império dos Césares. Esses consagrados obreiros desempenhavam o papel que, um século mais tarde, vieram representar os sínodos e os bispos diocesianos. Alguém pode objetar dizendo que, não obstante terem sido as Igrejas apostólicas autônomas, não se conclui que o devam ser em todos os lugares e nem que essa espécie de comunidade devesse ser permanente. Sem pretendermos discutir aqui largamente o assunto, afirmamos apenas que não haveria época mais propícia para a existência de qualquer união orgânica ou autoridade externa do que a apostólica. As Igrejas sustentavam naquela ocasião a maior luta de sua história, precisando, portanto da cooperação decidida de todas para a realização da obra evangélica no mundo. Considerando a questão sob certo ponto de vista, para a conservação da fé cristã, seriam precisos não só a camaradagem, a fraternidade, mas também todos os esforços de uma união orgânica, e o prestígio da autoridade externa. Mas o que havia entre esses irmãos era a verdadeira união espiritual, a íntima fraternidade cristã, o amor que não se mede em palavras, mas em obra e verdade.
Para que se conseguisse essa união, embora somente espiritual, era necessário que houvesse:
1⁰) Constante comunicação entre essas Igrejas;
2⁰) Doutrinação dos fiéis discípulos do Crucificado e instrução acerca da moral da nova Fé. Esse ensino era ministrado a princípio oralmente e com o auxílio da leitura das profecias do Antigo Testamento, que serviam para convencer os judeus e corroborar os princípios estabelecidos por Cristo e pelos apóstolos. Daí o costume das frequentes reuniões para o culto e estudo da Palavra de Deus. Dessas reuniões originar-se-iam as organizações eclesiásticas.
3⁰)Literatura apropriada. Logo começaram a circular as epístolas ou cartas apostólicas, que eram lidas em uma Igreja e passadas a outras, sendo também copiadas, como o provam os manuscritos e as cópias existentes. A literatura tornou-se um fator importante para a defesa e preservação da fé dos fiéis.
Para reforçar a sua tese a respeito das Igrejas primitivas serem congregacionais, o Dr. Dale afirmou:
"As Igrejas apostólicas não eram episcopais, não estavam sujeitas a nenhum chefe na terra nem a autoridades externas. Essas Igrejas eram congregacionais; o que resta provar é se essa forma de governo eclesiástico devia ser permanente, ou não; ou devia mudar, como acontece com a constituição política das nações, que está sujeita a grandes transformações com as mutações que sofrem as nacionalidades na sua vida e circunstâncias. Não é suficiente provar que as Igrejas primitivas eram congregacionais, é necessário também demonstrar que os princípios congregacionalistas estão radicados permanentemente na Revelação Cristã e que a política congregacionalista e a mais elevada e a mais natural forma de organização da Igreja Cristã, porque está em conformidade com o verdadeiro espírito de liberdade, que é o lema glorioso do Cristianismo".
Texto retirado do livro "Fundamentos e Princípios do Congregacionalismo" de autoria do Rev. Vanderli Lima Carreiro, pastor congregacional e mestre em Teologia, com especialização em Educação Religiosa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário