Autor: Roger Gonçalves
O que acontece no caso do nome “Jesus” é um caso simples de soletração. O nome de Jesus, Jesua ou de Josué eram nomes muito comuns nos dias bíblicos. Os nomes próprios não podem ser traduzidos, ou melhor, não há tradução para eles.
“Vi esse assunto num site e fiquei pensativo: disseram que a origem do nome “Jesus” é pagã, ou seja, não deveríamos usar este nome. Disseram também que o nome do “Messias” é Yehoshuah, e que as pessoas estão invocando o nome errado, pois no alfabeto hebraico a letra “J” não existe. Essa não é a minha opinião. Apenas gostaria de mais esclarecimento.”
O que acontece no caso do nome “Jesus” é um caso simples de soletração. O nome de Jesus, Jesua ou de Josué eram nomes muito comuns nos dias bíblicos.
Sabemos que nomes próprios não podem ser traduzidos, ou melhor, não há tradução para eles. Por causa disto, quando um nome próprio passa de uma língua para outra, a língua que recebe o nome faz uma adaptação deste às regras fonéticas da nova língua onde o nome será usado.
Não é uma questão de tradução de nome, mas de adaptação à fonética da língua que recebe o nome estrangeiro. Esta adaptação leva o nome de transliteração.
Deixe-me dar um exemplo do nome João, que em hebraico o nome é יוחנן – Yochanan, em grego Ἰωάννης – Ioánnes, em alemão Johann ou até Johannes, em francês Jean, em espanhol Juan, em italiano Giovanni, em inglês John, e assim por diante. Não são traduções do nome, mas adaptações às regras linguísticas de cada uma destas línguas. Assim o nome é soletrado (ou pronunciado), às vezes, de forma tão distinta, que uma língua pode não reconhecer a soletração da outra, como sugere ser o caso do alemão e do italiano, por exemplo.
Este mesmo caso de soletração em várias línguas ocorre com o nome “Jesus”. Com a complexa história linguística do povo judeu, os nomes próprios sofreram esta adaptação a cada novo idioma utilizado pelos judeus. Como o nosso interesse aqui é sobre o nome de Jesus, vamos nos concentrar nele. Podemos fazer dois caminhos: um progressivo, começando das raízes hebraicas deste nome até chegarmos à sua forma em português; e outro regressivo, começando do português até a forma mais antiga conhecida deste nome, que está em língua hebraica. Vamos tomar o progressivo.
A história da soletração do nome “Jesus” em português começa com o hebraico – Yehôshua – יהושע, que em português é adaptado como Josué; passa pelo aramaico – Yeshua – ישׁוּעָ, que em português é adaptado como Jesua; passa pelo grego – Iesoûs – Ἰησοῦς; passa pelo latim – Iesus; e finalmente chega ao português Jesus. O importante é notar que estas diferentes soletrações não são traduções do nome, mas adaptações fonéticas que cada língua fez para poder pronunciar o nome dentro da fonologia própria de cada língua. O nome Josué, Jesua ou Jesus é o mesmo nome em hebraico, aramaico, grego, latim ou português, e tem o mesmo significado: “Javé é salvação”. A questão é de soletração, não de tradução.
Jesus. Do gr. Iésous, equivalente ao heb. Yehoshua, “Josué” (ver Atos 7:45; Hebreus 4:8, em que Lucas e Paulo se referem a Josué como Iésous, “Jesus”). Em geral se entende que este nome significa “Yahweh é salvação” (ver Mateus 1:21) (…)
O nome original de Josué, Oseias, foi mudado para Jehoshua (Números 13:16). Josué é uma Jehoshua. Quando o aramaico substituiu o hebraico como idioma comum dos judeus, após o cativeiro babilônico, o nome se tornou 'Yeshua', forma transliterada para o grego como Iésous. 'Yeshua' era um nome comum entre os judeus da época do NT (ver Atos 13:6; Colossenses 4:11), em harmonia com o costume hebraico de escolher nomes com significado religioso.
Hoje os nomes servem apenas como identificação, mas nos tempos bíblicos o nome de um filho era escolhido com todo cuidado porque representava a fé e a esperança dos pais, as circunstâncias do nascimento da criança, suas características pessoais ou estava relacionado a sua missão na vida, principalmente quando o nome era designado por Deus.
O nome Jesus está repleto de lembranças históricas e vislumbres proféticos. Assim como Josué tinha conduzido Israel à vitória na terra prometida, assim também Jesus, o capitão de nossa salvação, veio para abrir os portões da Canaã celestial. Contudo, Jesus não é só o autor de nossa salvação (Hebreus 2:10), Ele também é Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão (Hebreus 3:1). O sumo sacerdote, que voltou do cativeiro babilônico (Esdras 2:2), se chamava Josué (Zacarias 3:8; 6:11-15). Assim como Oseias (nome idêntico no hebraico ao Oseias de Números 13:16), que amou a esposa indigna e buscou em vão ganhar suas afeições e finalmente a comprou de volta no mercado de escravos (Oseias 1:2; 3:1,2), Jesus veio para libertar a raça humana da escravidão do pecado (Lucas 4:18; João 8:36).
Roger Gonçalves é teólogo, apologeta e membro da Primeira Igreja Batista de Paciência.
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